Monday, November 13, 2006
Muito barulho por nada
Eu estava conversando com amigos em um bar quando percebi que, na mesa ao lado, duas mulheres discutiam enfaticamente sobre barulho. Em pouco tempo, entendi que havia um debate sobre os níveis de ruídos a que estamos expostos em Salvador. Uma delas aparentava ser estrangeira, impressão reforçada pelo sotaque. Falava com certa revolta da incapacidade que os baianos têm de respeitar os direitos alheios e de como a gente daqui ouve música nas alturas, mesmo de madrugada, faz batuque nos ônibus e buzina em frente a hospitais, sem se importar se está incomodando alguém.
Pensei em pedir um aparte, como interessado no caso, mas não quis reforçar o estereótipo de que, além de barulhentos nós baianos gostamos de entrar na conversa dos outros. Deixei o colóquio prosseguir, enquanto eu berrava para tentar chamar a atenção do garcom, que estava de bate-papo no balcão com a menina do caixa. Na mesa vizinha, a defensora dos costumes locais rodou à baiana para dizer que preferia viver na eterna festa soteropolitana a suportar a infelicidade da Europa, continente que, assinalou ela, lidera as estatísticas de suicídio. Seu argumento era que ela entendia a necessidade que as pessoas têm de se divertir e de que, jamais, agiria como um europeu, que reclama quando o vizinho dá descarga às três da manhã e chama a polícia para reclamar de pessoas que falam alto dentro do transporte coletivo. No exagero da apologia à felicidade, disse que não se incomodava de que houvesse festa barulhenta em seu prédio, queria deixar as pessoas felizes e que poderia tampar os ouvidos.
A essa altura da conversa, eu me lembrei de um vizinho que resolveu comemorar os seus 40 anos de idade voltando à adolescência, cantando com seus amigos em um aparelho de videokê, até as quatro da manhã. E o cara ainda tinha um repertório de lascar: pagode, funk, arrocha, coisas desse nível. Normalmente as pessoas que fazem barulho têm mau gosto. Nunca fui acordado de madrugada por um disco de Chet Baker, Billie Holiday ou João Gilberto. Nem mesmo uma mísera Adriana Calcanhotto. Até no Cemitério conseguimos fazer zuada, no Dia de Finados. De seu túmulo, Raul Seixas deve cantar para os seus fãs: "Às vezes, você me pergunta...por que é que eu sou tão calado..."
Pois é. Os infelizes têm que colocar Nara Costa, axé music ou Tati Quebra Barraco. Quando é em casa, ainda abrem as janelas para se certificar de que todo mundo na rua vai ouvir. No carro, escancaram o porta-mala para exibir o equipamento de som (muitas vezes mais caro do que o automóvel) e, com óculos escuros, ficam olhando ao redor para ter certeza de que os outros motoristas e pedestres compartilham seu gosto pela, digamos, música.
Voltemos ao meu vizinho. Lá vou eu fazer barulho na porta de seu prédio, implorando silêncio. Desce um cara com jeito de quem integrou o PFL Jovem há uns 20 anos para me atender. Antes de elevar o tom contra o pagodeiro da madrugada, tentei argumentar que ele podia, pelo menos, fechar a janela. Mas o cinico, que também era o síndico do prédio, disse que estava comemorando "uma data linda" e que pagaria a multa que fosse à prefitura, mas não deixaria de fazer barulho.
O cara da Sucom veio. Entrou no meu apartamento com cara de "você, reclamando de novo?", mediu os decibéis, um pouco abaixo do limite permitido e disse que não poderia fazer nada, se o pagodeiro não permitisse a sua entrada no apartamento para checar o volume do aparelho. Tentei fazer o meu papel de cidadão, ligando outra vez para o disque-poluição sonora, tal como fiz contra um terreiro de candomblé, uma igreja evangélica e toda a vizinhança barulhenta. Mas em Salvador o único retorno que se recebe das autoridas quanto ao tema é uma ligação da Sucom de madrugada, avisando que o seu pedido foi registrado. E ajudando a incomodar os vizinhos.
Pensei em pedir um aparte, como interessado no caso, mas não quis reforçar o estereótipo de que, além de barulhentos nós baianos gostamos de entrar na conversa dos outros. Deixei o colóquio prosseguir, enquanto eu berrava para tentar chamar a atenção do garcom, que estava de bate-papo no balcão com a menina do caixa. Na mesa vizinha, a defensora dos costumes locais rodou à baiana para dizer que preferia viver na eterna festa soteropolitana a suportar a infelicidade da Europa, continente que, assinalou ela, lidera as estatísticas de suicídio. Seu argumento era que ela entendia a necessidade que as pessoas têm de se divertir e de que, jamais, agiria como um europeu, que reclama quando o vizinho dá descarga às três da manhã e chama a polícia para reclamar de pessoas que falam alto dentro do transporte coletivo. No exagero da apologia à felicidade, disse que não se incomodava de que houvesse festa barulhenta em seu prédio, queria deixar as pessoas felizes e que poderia tampar os ouvidos.
A essa altura da conversa, eu me lembrei de um vizinho que resolveu comemorar os seus 40 anos de idade voltando à adolescência, cantando com seus amigos em um aparelho de videokê, até as quatro da manhã. E o cara ainda tinha um repertório de lascar: pagode, funk, arrocha, coisas desse nível. Normalmente as pessoas que fazem barulho têm mau gosto. Nunca fui acordado de madrugada por um disco de Chet Baker, Billie Holiday ou João Gilberto. Nem mesmo uma mísera Adriana Calcanhotto. Até no Cemitério conseguimos fazer zuada, no Dia de Finados. De seu túmulo, Raul Seixas deve cantar para os seus fãs: "Às vezes, você me pergunta...por que é que eu sou tão calado..."
Pois é. Os infelizes têm que colocar Nara Costa, axé music ou Tati Quebra Barraco. Quando é em casa, ainda abrem as janelas para se certificar de que todo mundo na rua vai ouvir. No carro, escancaram o porta-mala para exibir o equipamento de som (muitas vezes mais caro do que o automóvel) e, com óculos escuros, ficam olhando ao redor para ter certeza de que os outros motoristas e pedestres compartilham seu gosto pela, digamos, música.
Voltemos ao meu vizinho. Lá vou eu fazer barulho na porta de seu prédio, implorando silêncio. Desce um cara com jeito de quem integrou o PFL Jovem há uns 20 anos para me atender. Antes de elevar o tom contra o pagodeiro da madrugada, tentei argumentar que ele podia, pelo menos, fechar a janela. Mas o cinico, que também era o síndico do prédio, disse que estava comemorando "uma data linda" e que pagaria a multa que fosse à prefitura, mas não deixaria de fazer barulho.
O cara da Sucom veio. Entrou no meu apartamento com cara de "você, reclamando de novo?", mediu os decibéis, um pouco abaixo do limite permitido e disse que não poderia fazer nada, se o pagodeiro não permitisse a sua entrada no apartamento para checar o volume do aparelho. Tentei fazer o meu papel de cidadão, ligando outra vez para o disque-poluição sonora, tal como fiz contra um terreiro de candomblé, uma igreja evangélica e toda a vizinhança barulhenta. Mas em Salvador o único retorno que se recebe das autoridas quanto ao tema é uma ligação da Sucom de madrugada, avisando que o seu pedido foi registrado. E ajudando a incomodar os vizinhos.