Tuesday, December 26, 2006

 

Aeroporto Dois de Julho. E ponto

Bastaram um editorial de um jornal carioca e alguns discursos no Senado Federal, contra a revogação do atual nome do aeroporto de Salvador, para que o governador eleito da Bahia, Jaques Wagner, baixasse o tom quanto a sua disposição em fazer prevalecer o nome histórico do Aeroporto Dois de Julho. Pois mais do que uma birra anticarlista do futuro mandatário, como propõe o jornalista Augusto Nunes, do Jornal do Brasil, a volta do nome original é uma demanda de parcela significativa da sociedade baiana, que não tolera o fato de que um equipamento público batizado em homenagem à principal data cívica do Estado, a Independência da Bahia, tenha sido renomeado em honra de um político morto que, independente de suas qualidades parlamentares, não representa nem de longe para o povo baiano o que significou a expulsão definitiva dos portugueses, quase um ano após a Independência do Brasil.
Explicar isso para quem vive na Bahia é desnecessário. Mas para alguns políticos e jornalistas de outros Estados, que vivem em um universo particular, longe do real sentimento das pessoas comuns, faz sentido a bajulação a um senador que diz amar a Bahia acima de todas as coisas, mas não hesita em renegar a história para enaltecer o filho perdido. Não foi o suficiente nominar de Luís Eduardo Magalhães uma avenida, um viaduto, uma fundação, um conjunto de escolas públicas e até mesmo desmembrar um próspero distrito de Barreiras para que, emancipado, recebesse o nome do filho do senador. Era preciso que o aeroporto, em vias de ser modernizado, ostentasse o nome de Aeroporto Internacional de Salvador Deputado Luís Eduardo Magalhães. Típico de uma província. O conterrâneo fictício Odorico Paraguaçu não teria feito melhor. Na Sucupira da vida real, não se penou para conseguir inaugurar um cemitério, à escassez de mortos. Mas o salão de velórios do Campo Santo foi providencialmente ornamentado com mármore, a fim de se tornar digno do defunto ilustre.
Não se deve esperar muito empenho do governador eleito para que o aeroporto volte a ser Dois de Julho. Até porque, por algum motivo que só os políticos conhecem, ele votou a favor da homenagem a Luís Eduardo. Nem mesmo a mídia local se posiciona, não ousa contestar. A esperança é que haja uma reação popular pela mudança, como houve recentemente quando os nobres parlamentares ignoraram o País e resolveram reajustar em 91% os seus salários. Ou a "Revolta do Buzú", quando a Prefeitura de Salvador permitiu a elevação da tarifa para R$ 1,50, na gestão passada.

Sunday, December 10, 2006

 

E morre Pinochet

Quando Augusto Pinochet foi preso na Europa em 1998, aos 83 anos, por determinação do juiz espanhol Balthazar Garzon, houve muita alegria entre os chilenos que viviam no exílio desde o golpe militar que levou Pinochet ao poder, em 1973. Tudo indicava que, finalmente, o ditador enfrentaria no exterior a Justiça que se negava na nação que ele controlou como propriedade pessoal até 1990, quando o Chile foi redemocratizado.
Uma amiga chilena que na época trabalhava como garçonete no Pelourinho foi uma dos que festejaram muito. O título de senador vitalício que protegia Pinochet de qualquer investida judicial no Chile não impediria que o general fosse julgado na Europa. A alegria terminou depois que, baseado no diagnóstico de uma clínica londrina que indicava precárias condições de saúde, o ministro britânico Jack Straw impediu a extradição de Pinochet para a Espanha, liberando sua volta ao Chile em 2000.
Seis anos depois, o sanguinário ditador que aos olhos de parte da humanidade se transformou em um frágil velhinho deixou o mundo sem prestar, plenamente, contas à sociedade chilena pelas mortes e desaparecimentos que vitimaram centenas de pessoas, inclusive o general Alberto Bachelet, pai da atual presidente Michelle Bachelet, um aliado de Salvador Allende, condenado e morto na prisão por “traição à pátria“.
Ao contrário do que temia a garçonete chilena, Pinochet acabou enfrentando a justiça em seu país, sendo inclusive fichado na polícia. Parece pouco, mas em comparação a outros ditadores latino-americanos do mesmo calibre, o general teve que se explicar. A edição de ontem do jornal chileno La Tercera lembra que desde 1998, o juiz Juan Guzmán Tapia recebeu 260 queixas contra Pinochet, que teve que reponder pela morte de alguns compatriotas e também por delitos de cunho financeiro.
Sua morte leva ao choro uma parte significativa do Chile, que agradece ao general, entre outras coisas, pelo considerável crescimento econômico do país que, baseado na exportação de cobre e de frutas, transformou o mais estreito país do mundo na mais larga expansão econômica do continente.
Se outro ditador, o cubano Fidel Castro, se prepara para morrer como o líder que enfrentou os Estados Unidos por quatro décadas e levou sua pequena ilha a invejáveis progressos em educação e saúde, a despeito da falta de liberdade e escassez de comida, o general chileno leva para o túmulo, de um lado os louros pelo progresso econômico e, de outro, o incalculável derramamento de sangue que causou em sua terra. Nos dois casos, os ditadores (um de direita e outro de esquerda) conseguiram dividir seus países ao meio. Os que os amam e os que os odeiam. Vou escrever à garçonete chilena, que admirava a revolução cubana, e perguntar se ela acha que houve justiça. Mas posso imaginá-la pelas ruas de Santiago para celebrar a notícia de ontem. Em seu lugar, eu faria o mesmo.

Tuesday, December 05, 2006

 

Turistas, o filme

O filme de terror Turistas, dirigido por John Stockwell, sobre estadunidenses que são vítimas de uma máfia de traficantes de órgãos no País, só deve chegar às telas nacionais em fevereiro do ano que vem. Mas já conseguiu horrorizar os brasileiros. A Embratur chegou a anunciar que poderia fazer uma campanha publicitária no exterior para neutralizar possíveis danos à imagem do Brasil, pois na história os gringos são seqüestrados no Rio de Janeiro, após serem vitimados pelo golpe do boa noite, Cinderela, e levados à Amazônia, onde são torturados. O temor da Embratur foi endossado por correntes que circulam pela internet pedindo desde já o boicote à produção.
Como diria Jack, o estripador (que era britânico), vamos por partes. Promover um boicote a um filme que apresenta uma versão distorcida de seu país é uma reação que só faz depor contra a imagem de nação civilizada que a Embratur quer preservar. Ou será que nós, que adoramos piadas sobre portugueses e argentinos, não achamos graça quando outras culturas são ridicularizadas? Duvido que os cinéfilos brasileiros façam uma passeata em solidariedade ao Cazaquistão, que recentemente também embarcou na onda de protestos nacionais contra o filme Borat, que retrata um repórter daquele país em visita aos Estados Unidos e que quer se casar com Pamela Anderson.
Pelo critério de censurar obras audiovisuais que ridicularizem ou promovam estereótipos de povos, as novelas e minisséries globais que retratam o Nordeste deveriam ser banidas pelo Ministério da Justiça. Quando se trata de personagens ciganos e árabes, então, as emissoras de TV poderiam virar alvo de terroristas.
Turistas deve ser boicotado não pelo tema, mas porque, segundo as primeiras críticas vindas dos Estados Unidos, onde o filme acaba de estrear, é tão ridículo quanto quase todas as produções hollywoodianas em terras brasileiras. Eu fiquei particularmente ofendido com Sabor da Paixão e Orquídea Selvagem. E é bobagem imaginar que um estadunidense deixe de vir ao Brasil por causa de um filme desses. Uma pessoa que seja idiota o suficiente para confundir ficção e realidade jamais viria para cá, a não ser para fazer um daqueles intercâmbios esquisitos, como a adolescente mórmon que fugiu de Belo Horizonte para Salvador e deixou a família em pânico no Óregon. Fora disso, a vida real nas grandes cidades brasileiras é muito mais assustadora do que o bisturi de um cientista maluco em um filme B.

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