Sunday, December 10, 2006

 

E morre Pinochet

Quando Augusto Pinochet foi preso na Europa em 1998, aos 83 anos, por determinação do juiz espanhol Balthazar Garzon, houve muita alegria entre os chilenos que viviam no exílio desde o golpe militar que levou Pinochet ao poder, em 1973. Tudo indicava que, finalmente, o ditador enfrentaria no exterior a Justiça que se negava na nação que ele controlou como propriedade pessoal até 1990, quando o Chile foi redemocratizado.
Uma amiga chilena que na época trabalhava como garçonete no Pelourinho foi uma dos que festejaram muito. O título de senador vitalício que protegia Pinochet de qualquer investida judicial no Chile não impediria que o general fosse julgado na Europa. A alegria terminou depois que, baseado no diagnóstico de uma clínica londrina que indicava precárias condições de saúde, o ministro britânico Jack Straw impediu a extradição de Pinochet para a Espanha, liberando sua volta ao Chile em 2000.
Seis anos depois, o sanguinário ditador que aos olhos de parte da humanidade se transformou em um frágil velhinho deixou o mundo sem prestar, plenamente, contas à sociedade chilena pelas mortes e desaparecimentos que vitimaram centenas de pessoas, inclusive o general Alberto Bachelet, pai da atual presidente Michelle Bachelet, um aliado de Salvador Allende, condenado e morto na prisão por “traição à pátria“.
Ao contrário do que temia a garçonete chilena, Pinochet acabou enfrentando a justiça em seu país, sendo inclusive fichado na polícia. Parece pouco, mas em comparação a outros ditadores latino-americanos do mesmo calibre, o general teve que se explicar. A edição de ontem do jornal chileno La Tercera lembra que desde 1998, o juiz Juan Guzmán Tapia recebeu 260 queixas contra Pinochet, que teve que reponder pela morte de alguns compatriotas e também por delitos de cunho financeiro.
Sua morte leva ao choro uma parte significativa do Chile, que agradece ao general, entre outras coisas, pelo considerável crescimento econômico do país que, baseado na exportação de cobre e de frutas, transformou o mais estreito país do mundo na mais larga expansão econômica do continente.
Se outro ditador, o cubano Fidel Castro, se prepara para morrer como o líder que enfrentou os Estados Unidos por quatro décadas e levou sua pequena ilha a invejáveis progressos em educação e saúde, a despeito da falta de liberdade e escassez de comida, o general chileno leva para o túmulo, de um lado os louros pelo progresso econômico e, de outro, o incalculável derramamento de sangue que causou em sua terra. Nos dois casos, os ditadores (um de direita e outro de esquerda) conseguiram dividir seus países ao meio. Os que os amam e os que os odeiam. Vou escrever à garçonete chilena, que admirava a revolução cubana, e perguntar se ela acha que houve justiça. Mas posso imaginá-la pelas ruas de Santiago para celebrar a notícia de ontem. Em seu lugar, eu faria o mesmo.

Comments:
É bom ler informações coerentes e críticas...obrigada jornalista!
Continue escrevendo
 
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