Monday, November 20, 2006

 

A taxa de câmbio também interessa aos negros

Uma conhecida me encontrou na rua e perguntou por que eu não escrevi matérias sobre o dia 20 de novembro. Respondi brincando que esse tema é exclusividade de uma colega minha de redação. Mas, falando sério, sempre fiquei desconfortável com a idéia de que pessoas de pele escura têm que estudar assuntos relacionados à África ou ao universo afro. Lembro que há mais de 10 anos uma amiga demonstrou surpresa quando apareci no trabalho com um livro de alemão debaixo do braço. Disse-me que eu deveria priorizar um idioma que "estivesse mais próximo à minha cultura". Pensei com meus botões que ela queria que eu me matriculasse em um curso de iorubá. O problema é que, a rigor, eu tenho tanta proximidade do continente africano quanto do europeu: nenhuma. Nada, além do fato de alguns dos meus longínquos antepassados terem vindo do outro lado do Atlântico, faz com que eu me identifique culturalmente com a Nigéria, o Sudão ou Angola. A verdade objetiva e, digamos, clara é essa.
A Fundação Palmares elaborou há alguns anos, juntamente com o CNPq, uma base de dados com pesquisas acadêmicas desenvolvidas em todo o País que "interessam à população negra". Imagino que dificilmente se encontrará nesse rol um artigo sobre taxas de câmbio. Mas a cotação do dólar é um assunto que atinge a todos os brasileiros. Por outro lado, o chamado universo afro não pertence aos negros, e sim à humanidade, tal como o Holocausto e a Guerra no Iraque. Eu quero escrever sobre tudo, não apenas sobre o que diz respeito à África.
O Dia Nacional da Consciência Negra é importante, sim, para o combate ao racismo e às desigualdades sociais. Obviamente, a maioria das pessoas com a pele negra no Brasil tem menor acesso a educação, os trabalhos com piores salários e de menor status e, não raro, são vistas com desconfiança por donos de restaurantes finos e policiais. Mas a enfatização das "diferenças raciais" não ajuda muito a combater as desigualdades. Primeiro, porque a dignidade de um ser humano, seja qual for a cor da sua pele, deve interessar a toda a sociedade. Homens brancos e heterossexuais devem estar igualmente comprometidos com o respeito às mulheres, aos negros e aos homossexuais. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, biólogos e antropólogos de todo o mundo já vaticinavam: não existe raça negra, índigena ou branca. A raça humana é uma só.
Segundo, porque a solidificação de um "universo negro", englobando culinária, costumes e religiões da África, abre caminho para que se estabeleça justamente, como contraponto, o "universo caucasiano". Se todo homem consciente de sua negritude tem que estar vinculado ao candomblé, andar de bata e comer dendê, os brancos estão igualmente obrigados a professar o cristianismo e ouvir música erudita. Roqueiro sem melanina, saia desse corpo que ele não te pertence! A Secretaria Municipal de Saúde de Salvador, por exemplo, acredita piamente que existem "doenças da raça negra", como a anemia falciforme. Os gestores de saúde pública ignoram solenemente que os genes da enfermidade estão ligados à ancestralidade e não à cor da pele. Em um país miscigenado como o Brasil não é difícil encontrar pessoas socialmente aceitas como brancas que são portadoras da anemia ou apresentam traço falciforme. Mas a prefeitura insiste em segregar o atendimento, fazendo inclusive feiras de saúde em terreiros de candomblé. Afinal, negão que é negão é de santo. Alguns evangélicos e católicos, especialmente os de baixa escolaridade, dificilmente iriam procurar atendimento em templos de religiões politeístas. Como o Brasil é um país laico, as autoridades de saúde não podem tomar partido. Se a feira é feita no terreiro, tem que ser feita também em outros ambientes religiosos.
O combate às desigualdades sociais não deve ser racializado, apesar de a maioria dos pobres no Brasil ser de negros. A sociedade tem que perseguir a melhoria de vida de todos os cidadãos. A política de cotas é um excelente instrumento de inclusão social, mas não deve ser endereçada oficialmente aos negros, e sim aos pobres. No fundo, o resultado será praticamente o mesmo. Mas além de não excluir do benefício os brancos pobres (acho que a idéia não é essa) não se prestará a servir de palanque para a exaltação das supostas diferenças entre brancos e negros. Isso já foi tentado na Alemanha por um baixinho austríaco e não deu muito certo. Fui claro?

Comments:
Claríssimo! Eu sempre quis que as pessoas entendessem isso, sem precisar explicar que não estava renegando a minha "identidade"!!! Enfrentei reação parecida quando resolvi aprender italiano...rsrs
Só falta as pessoas entenderem que uso tranças apenas porque combinam comigo e, claro, as acho lindas!!!;)
 
Totalmente. E concordo com tudo. Abç.
 
Interessante os dados que você tem sobre anemia falciforme. De onde você tirou? É uma pesquisa original?

Abraços
 
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Fábio,
O comentário sobre a doença está baseado no artigo de Peter Fry chamado O significado da anemia falciforme no contexto da "política racial" do governo brasileiro, de 1995 a 2004. O texto está disponível no Scielo. Além do diagnóstico para a saúde da população negra feito pela Secretaria Municipal de Saúde. É bom conviver com antropólogos, não? rsrsrs
 
Gilson, pode parecer cabotinice, e é, mas mire-se no meu exemplo.
Com minha consciência rubro-negra escrevi um alentado tratado sobre a "influência do Jeje-nagô na cultura clássica alemã".

Ouça um bom conselho: Deixe de ser herege e também reflita e medite sobre estes fundamentais temas afros, rapaz.
 
Interessante que o Movimento Negro levante a bandeira da diversidade, para logo após argumentar que "negro consciente" deve fazer X ou pensar Y. Cadê a diversidade de jeitos de viver a identidade racial? Por que "negro" deveria incluir todos os que tem descendencia africana aparente no fenotipo, isso não seria contra a diversidade?
 
Esta fantastico o artigo! Vou dar de leitura aos meus estudantes. Continue escrevendo assim, Gijo, que inspira e informa.
 
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