Saturday, September 22, 2007

 

mudança

mudou para http://nopedocaboclo.wordpress.com

Monday, September 17, 2007

 

Fale com o cobrador somente o necessário

Como não têm que dirigir ônibus, os cobradores acabaram não merecendo das empresas aqueles adesivos ao seu lado pedindo aos passageiros que evitem puxar conversa. Claro, sua desconcentração no trabalho não vai causar batidas, atropelamentos e freadas buscas (que, aliás, acontecem mesmo com os motoristas de boca e ouvidos fechados). O máximo que pode acontecer é ele se perder ao contar moedas de $0,05, quando já estava lá pelos R$37,50, e ter que jogá-las de novo sobre a banca e recomeçar do zero, porque alguém que está no ponto bateu na carroceria perguntando se o ônibus, linha Barra-Praça da Sé, passa pelo Rio Vermelho.
Mas outro dia, enquanto aguardava o troco em pé ao lado do cobrador, fiquei pensando no que é ser a pessoa física encarregada de retirar de cada passageiro R$2 (quase 0,5% do salário-mínimo) por uma viagem de ônibus, que atrasa, está superlotado e não pára de chacoalhar, graças ao motorista, que não pode falar com os passageiros, mas está autorizado a fazer barbeiragens no trânsito. Sem falar que o cobrador é o funcionário "destacado pela empresa" para entregar todo o dinheiro, que ele contou com tanto carinho, em caso de assaltos.
Enquanto o ônibus e minha cabeça vão viajando, um homem sobe no coletivo e pergunta se "vai pela Cardeal". O cobrador, impaciente desde o início, balança a cabeça positivamente, e recebe uma bateria de perguntas complementares, se o ônibus vai até o final da Cardeal, se vira a direita no final e se lá, depois da virada, existe um semáforo. Quase me intrometi para perguntar quanto tempo o semáforo fica vermelho e qual a numeração das casas da esquina, antes de que o cara se decidisse a passar pela borboleta.
Obviamente, era alguém que não tinha intimidade com a área e precisava retornar lá. Mas para o cobrador é só mais um chato que faz perguntas cretinas enquanto ele tem que arranjar troco para o centésimo panaca do dia que não tinha uma nota de R$ 2 no bolso.

Saturday, April 14, 2007

 

Rapaz..."Ó paí, ó" é um bom filme

Como boa parte de meus amigos, eu estava absolutamente reticente em relação a assistir o novo filme de Monique Gardenberg. Os motivos para ficar com o pé atrás eram consideráveis. Suas películas anteriores (Jenipapo e Benjamim) são irregulares, a trilha sonora cantada por Caetano Veloso e Jauperi é uma desgraça, e sempre que eu penso numa representação cênica da Bahia para o resto do Brasil eu me lembro (desculpe aí, Edgar Navarro) de um congresso de estudantes em Aracaju, quando uma menina de Goiás me pediu para ensiná-la a dançar dentro do ônibus assim que soube de onde eu era.
Mas um casal conhecido me disse que gostou do filme e eu arrisquei. O filme é bom. Não é nenhuma maravilha, não traz nenhuma mensagem filosófica que mude o mundo, não vai deter o aquecimento global, mas simplesmente é um bom entretenimento. Ao contrário do que se poderia supor, a transposição da peça do Bando de Teatro Olodum (Márcio Meirelles) para o cinema funcionou. As histórias de cidadãos baianos pobres que foram despejados do Pelourinho após a revitalização do Centro Histórico e se juntam em um cortiço das redondezas é contada com honestidade.
Parte das críticas ao filme está relacionada à ausência de um roteiro "amarrado". E precisa? Nem sempre. O bom de "Ó paí, ó" é que as historias individuais são narradas de maneira inteligente e divertida. Desde a dona da casa, uma evangélica que tenta domar os inquilinos pagãos que não pagam a conta de água, ao policial que se torna refém de um comerciante que lhe empresta dinheiro. Sem falar nos sonhadores, como o biscateiro que quer viver de música e uma baiana que chega da Europa, fingindo viver lá um conto de fadas.
É difícil não se emocionar com a atuação de Luciana Souza, como a evangélica que cria sozinha os filhos gêmeos desde que seu marido foi morar em outra cidade. Os atores do Bando, incluindo o seu ex-integrante Lázaro Ramos, dão conta do recado. Eles agarraram bem a oportunidade de aparecer para todo o País. Tem aquela coisa de, repentinamente, todo mundo sair cantando e dançando. Mas afinal de contas a história vem de uma peça de teatro do Olodum!
O filme tem seus pontos fracos: a péssima atuação de Wagner Moura, a "forçação" de barra para incluir a expressão "Ó paí, ó" em uma cena e o final mal costurado. Não ter roteiro, vá lá. Mas também não ter final, por favor, né? A última tomada parece ter sido pensada como a forma de incluir um dos patrocinadores do filme. Mas, assim como em Jenipapo, o final não ficou (ou desceu) redondo.

Publicado em www.jornalssa.com.br

Sunday, February 25, 2007

 

O túmulo e o cúmulo

Longe de mim defender o Asa de Águia e Ivete Sangalo ou tratar o Chiclete com Banana como patrimônio cultural baiano. Mas os ataques feitos ao Carnaval de Salvador pelo prefeito do Rio, César Maia, e alguns jornalistas de lá de baixo são uma indisfarçável dor-de-cotovelo. Dizer que Carnaval só pode receber esse nome se estiver vinculado a um ritmo específico como o samba (Rio), o frevo (Recife) ou o jazz (New Orleans) é uma idiotice do tamanho da Sapucaí. Os próprios pernambucanos abandonaram a noção purista de que se deve restringir a festa ao frevo e abraçaram o que chamam de multiculturalismo. Se o prefeito carioca montasse em um cavalo na Mudança do Garcia, como fez a versão baiana de César Maia, não teria escrito um texto tão burro. Se tivesse ouvido as marchinhas no Centro Histórico, não teria usado argumentos tão superficiais para a defender a hegemonia do Carnaval de sua cidade.
Criticar a pobreza rítmica e poética das músicas que embalam os foliões na Bahia é algo que alguns baianos fazemos com freqüência. Mas os milhares de foliões soteropolitanos, cariocas, paulistas e de qualquer outra parte do mundo que se divertem no Carnaval (e nas micaretas) não estão nem aí para isso. Desde que possam pular, beijar, beber e se acabar na festa da carne (não ligam a mínima para o que estão tocando). E realmente os samba-enredos não são exatamente um modelo de como se escrever letras belíssimas e profundas. Maia e um jornalista chamadoTales Faria afirmam que a Bahia roubou de São Paulo o título de "túmulo do samba". Palpite infeliz. É o cúmulo da inveja. Estão obviamente interessados em manter o Rio de Janeiro como o centro das atenções durante o período da folia. Mas a Cidade Maravilhosa não precisa disso. O seu Carnaval espetacular continua lindo, assim como o Rio de janeiro, fevereiro e março, já disse o homem que hoje conduz o Expresso 2222. Maia devia se preocupar em administrar a sua cidade e o seu Carnaval e esquecer quem não gosta de ver desfiles de escolas de samba e prefere fazer sua própria folia atrás de um trio elétrico. Mesmo que seja o do Chiclete com Banana.

Friday, February 16, 2007

 

Disseram que voltei heterossexualizada

Depois de morar por um período nos Estados Unidos, a fenomenal Carmen
Miranda, (1909-1955), teve que gravar a canção "Disseram que voltei
americanizada" para aplacar críticas que sofreu no País. Era a Pequena
Notável (a verdadeira, não a do Babado Novo) reafirmando as suas
raízes. Este ano, o babado novo foi a explicação que Margareth Menezes
deu no desfile do bloco "Os Mascarados", no Farol da Barra. Maga, como
é chamada pelas bichas, desabafou, disse que não quer servir de
exemplo para ninguém, que a única coisa que ela sabe fazer bem é
música (não se deprecie, mulher!) e que para ela tanto faz se as
pessoas são brancas, negras, heterossexuais ou homossexuais.
Militantes radicais dos direitos humanos enxergaram em seu discurso
uma certa indiferença em relação aos bissexuais mulatos.
O fato é que parte considerável dos antigos associados do bloco
resolveu boicotar MM, depois que elas fez afirmações do tipo: eu estou
cantando nesse bloco gay, mas eu não sou gay! Eu não sou gay!!! Este
ano mesmo teve gente que observou o desfile do lado de fora das
cordas, batendo o pezinho, olhando para o lado e dizendo "humpf".
Dentro, um rapaz com a camiseta de convidado comentou com dois amigos:
ela deu uma baixa nos veados.
Com o bloco cada vez mais cheio, já se pensa em nova facção para 2008.
Além dos Descarados, os Discarados e os Desmascarados, alguns
excluídos pensam em lançar os Massacrados. Um fotógrafo amigo meu que
chegou de Angola está batalhando financiamento oficial para uma
maga-exposição, quer dizer, mega-exposição sobre o tema. Cada
ex-mascarado tem uma queixa. Ela já não é a mesma, está se aproximando
dos mauricinhos, o bloco está inflado, não dá para ouvir direito a
música quando se fica muito à frente ou muito atrás, não tem mais
concentração para ficar dando pinta até a hora da saída e, para
completar, Maga foi fazer os ensaios para o Carnaval no Rio de
Janeiro. "Por favor, fale mal dela", pediu um associado ao final do
desfile. Ele reclamava a ausência de uma música forte para este
Carnaval. Nem que fosse "Disseram que voltei heterossexualizada". Já
seria alguma coisa.
Mas mesmo com o boicote, o bloco foi praticamente o mesmo de sempre,
divertidíssimo. Por ausência de militância ou por falta de
alternativa melhor, povo que gosta de se fantasiar estava quase todo
ao redor de Margareth, dentro ou fora das cordas. Honestamente, quem
aceita desfilar em um bloco em que meninas de cabelo liso são
escolhidas a dedo, no bom sentido, e recebem as camisetas de graça
para atrair os machões que pagam para "ter um harém"?
Gostando-se ou não de Margareth, Os Mascarados continuam sendo a coisa
mais irreverente da folia baiana, ao lado da Mudança do Garcia. Em
nenhum outro lugar é possível ver uma cordeira largar o trabalho para
dar um tapa na bunda de um associado que está se agarrando com outro
homem ao lado do trio elétrico. "Posso ficar ao lado de vocês? As
pessoas aqui são muito estranhas!", disse um conhecido mascarado que
juntamente com seu grupo vestia-se de ave com um nariz em forma de
pênis. "Tem razão, eu mesmo estou me sentindo estranhíssimo com meu
cabelo lambido pela chuva", respondi.
Mas mesmo com tanto escracho, alguns associados ainda não têm coragem
de abraçar publicamente o amor que não ousa dizer o seu nome. Uma
colega minha viu de longe um amigo de infância e saiu correndo para
cumprimentá-lo. O rapaz se escondeu enquanto pôde e depois deu abraço
sem graça na amiga. E olha que ele não estava fazendo nada de
"errado". Apenas estava em pé entre os mascarados. As pessoas são
realmente estranhas.

Monday, February 05, 2007

 

Déjà vu

A agência de notícias Efe demitiu essa semana uma veterana jornalista acusada de plágio. A repórter, que admitiu o crime, copiou parágrafos inteiros da Wikipedia para a sua matéria sobre o déjà vu, expressão francesa que expressa a sensação de viver uma coisa que já havia sido experimentada. O texto foi comprado por vários jornais do planeta, inclusive o colombiano El Tiempo, que publicou a matéria em 22 de dezembro. Foram os leitores desse jornal que perceberam o CTRL C, CTRL V e reclamaram ao jornal. Alex Grijelmo, presidente da EFE, iniciou uma investigação interna e descobriu a falcatrua. A jornalista, que não teve o seu nome revelado, foi demitida. A EFE pediu desculpas a El Tiempo e retirou o texto de seus arquivos. É a primeira vez em sua história que agência demite um funcionário por esse motivo. As informações são do jornal espanhol El Mundo.

Tuesday, December 26, 2006

 

Aeroporto Dois de Julho. E ponto

Bastaram um editorial de um jornal carioca e alguns discursos no Senado Federal, contra a revogação do atual nome do aeroporto de Salvador, para que o governador eleito da Bahia, Jaques Wagner, baixasse o tom quanto a sua disposição em fazer prevalecer o nome histórico do Aeroporto Dois de Julho. Pois mais do que uma birra anticarlista do futuro mandatário, como propõe o jornalista Augusto Nunes, do Jornal do Brasil, a volta do nome original é uma demanda de parcela significativa da sociedade baiana, que não tolera o fato de que um equipamento público batizado em homenagem à principal data cívica do Estado, a Independência da Bahia, tenha sido renomeado em honra de um político morto que, independente de suas qualidades parlamentares, não representa nem de longe para o povo baiano o que significou a expulsão definitiva dos portugueses, quase um ano após a Independência do Brasil.
Explicar isso para quem vive na Bahia é desnecessário. Mas para alguns políticos e jornalistas de outros Estados, que vivem em um universo particular, longe do real sentimento das pessoas comuns, faz sentido a bajulação a um senador que diz amar a Bahia acima de todas as coisas, mas não hesita em renegar a história para enaltecer o filho perdido. Não foi o suficiente nominar de Luís Eduardo Magalhães uma avenida, um viaduto, uma fundação, um conjunto de escolas públicas e até mesmo desmembrar um próspero distrito de Barreiras para que, emancipado, recebesse o nome do filho do senador. Era preciso que o aeroporto, em vias de ser modernizado, ostentasse o nome de Aeroporto Internacional de Salvador Deputado Luís Eduardo Magalhães. Típico de uma província. O conterrâneo fictício Odorico Paraguaçu não teria feito melhor. Na Sucupira da vida real, não se penou para conseguir inaugurar um cemitério, à escassez de mortos. Mas o salão de velórios do Campo Santo foi providencialmente ornamentado com mármore, a fim de se tornar digno do defunto ilustre.
Não se deve esperar muito empenho do governador eleito para que o aeroporto volte a ser Dois de Julho. Até porque, por algum motivo que só os políticos conhecem, ele votou a favor da homenagem a Luís Eduardo. Nem mesmo a mídia local se posiciona, não ousa contestar. A esperança é que haja uma reação popular pela mudança, como houve recentemente quando os nobres parlamentares ignoraram o País e resolveram reajustar em 91% os seus salários. Ou a "Revolta do Buzú", quando a Prefeitura de Salvador permitiu a elevação da tarifa para R$ 1,50, na gestão passada.

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